– Hoje é um real, na validade. Sonho de valsa! –
– Convenção, Guaravita... –
– Bombom da que delícia é dois. –
– Bolinho de luxo, de bacana, Ana Maria. –
O falatório do trem que geralmente era suprimido pelo spotify parecia não querer apresentar lógica alguma, exceto o compromisso em não permitir que as pessoas se concentrassem, tarefa pouco difícil na era do tiktok. Mas nosso amigo gosta de palavras e, como se não gostasse delas, fica tentando captar o que está por trás daquelas que são paridas sem qualquer reflexão. Seria injusto fazer esse juízo das proferidas pelos ambulantes, pois são resultado de milenares esforços no estudo da retórica que, salpicadas de suor e sotaque, culminam em expressões maravilhosas como a pérola de desconhecida autoria “comprar barato não é vergonha, é oportunidade!”. Os arautos cariocas sabem como entrar na mente do consumidor, mas Paes Edi não costuma se deixar seduzir. Perdido entre os anúncios e o balanço da composição, quando não muito cansado pelo seu dia, fica matutando sobre o que lhe dá na telha, imaginando que para além da aspereza suburbana talvez exista um plano em que tudo aquilo faça sentido, onde o andar coxo de uma ambulante beirando a terceira idade se justifique nas luzes vermelhas que acendem quando as portas se fecham.
Nosso viajante tem certo fascínio com os trilhos, a inclinação natural para a ordem das coisas, apesar de frequentemente em choque com seu impulso irresponsável, faz com que lhe maravilhe ver avançar tamanha massa de metal deslizando na inércia do movimento. E como transporta gente! É grande a responsabilidade do maquinista. Pensando no peso desse encargo, começou a se perguntar se seria mesmo tão desafiadora a tarefa do maquinista, visto que, se comparado a condutores de outros meios de transporte, as opções para a locomotiva não são muitas: ou para, ou segue nos trilhos, ou descarrilha. Descarrilhar sempre lhe pareceu a ideia mais poética, talvez por nutrir secreta e subconscientemente o desejo de escapar de uma comovente tragédia. Mas, voltando ao fio da meada, aos trilhos do nosso pensamento, rondava a mente de Edi a hipótese de serem todos os demais pilotos, ou melhor, sermos todos nós meros maquinistas tocando nosso trenzinho por cima de invisíveis trilhos.
Diante de tal suposição, foi instantânea a lembrança de um tipo de tatuagem muito frequente. No trem mesmo ele já vira várias pessoas dessa marca: Maktub. Palavra que, por incrível que pareça, não é uma plataforma de vídeos online e sobre a qual, confesso a ignorância, não posso discorrer muito. Porém, traz consigo a ideia que a memória lhe invocou, ser mera engrenagem num enorme, britânico e pontual relógio suíço.
Estava quase chegando sua estação. Por isso, sacou da mochila o caderno para poder perder os despropositados pensamentos, mas, antes de jogá-los ao papel, ficou perplexo ao notar que na folha, também na folha, estavam os trilhos, paralelamente marcando “A estrada inteiramente insubjectiva/ Branca, branca, sem pensamento algum”. ¹
¹ - Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.
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