Às primeiras horas da manhã, o calor insuportável que viria a fazer era anunciado pelo som estridente do trem. Por detrás dos morros, vindo do lado sul da cidade, subia pelo céu, apesar de sua imobilidade, o apolíneo sol.
No apartamento contíguo à linha férrea, Ciro ouvira a composição passar e foi acordado pelo celular que, lá da sala, o despertou. Tinha criado este hábito para se forçar a levantar de seu pesado sono. Pois, além de notívago, era uma criatura com bastante inércia: amigo das noites em claro e de dormir até tarde, não gostava de mudar de estado, era um parto para acordar e outro para adormecer.
Após cumprir seu rito matinal, saiu em direção à academia, mais uma das frequentes obrigações a que ele se forçava. Sobretudo, depois de que o metabolismo começou a dar mostras de que seu estilo de vida se traduziria, a cada dia mais, fielmente na forma do seu corpo. E, apesar de não ter tendência à obesidade, boêmio que era, se sentia ridículo ao ostentar, numa carcaça magricela, possante barriga.
No início, a ideia de estar ali como um hamster na gaiola que, obstinadamente, corre em sua roda o afligia, mas, depois de certas leituras, constatou que todos são ratos roendo o seu queijo e girando em seu círculo.
Apesar da crueza dessa imagem, algumas cenas do cotidiano o comoviam. Uma delas se dava corriqueiramente quando, naquele horário, ia malhar: com o comércio local ainda fechado e a rua deserta, aos primeiros raios do amanhecer, um camelô cantava entusiasmado um pagode mais romântico do que o outro. Aquilo era tão genuinamente vivo e esperançoso que o fazia pôr em xeque os seus pensamentos matutinos mais soturnos.
Toda a figura deste homem era um quadro bem-acabado. O moço vendia bolsas numa passagem - pensada como boulevard, mas que ficava atulhada de ambulantes – totalmente loteada pelas barracas. A deste vendedor era daquelas pantográficas, bem grande, o que, por um lado, denotava a prosperidade e justificava sua alegria, mas, por outro, aumentava a carga de trabalho que, ao menos naquele momento, caía somente sobre os ombros daquela corpulenta e carismática figura. Enfim, as ambivalências do sucesso...
Quando colocava em perspectiva as dificuldades alheias e a forma como estoicamente aquelas pessoas prosseguiam lutando, a sua propensão a problematizar refreava e, uma vez em movimento, vinha uma onda de gratidão, deixando-lhe agradecido pela roda em que girava, pela parte que lhe coube neste latifúndio.
28/10/2025
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